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O primeiro encontro!

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Quando há 12 anos, eu andava sobre uma planície (coisa rara numa região predominantemente serrana) me deparei com um pé de coqueiro, formado por diversos caules; e, em dum dos caules se destacava uma saliência (como se um apêndice dele mesmo). Mas, observei calmamente que se tratava de uma planta (outra que não o sujeito ereto), estava ali grudada e fazia-se regente de uma população de musgos (de cor alaranjada) que a rodeava… Ora, as raízes não podiam ser vistas, seriam os musgos a sua sustentação?

Catasetum
Catasetum macrocarpum

Apoiei-me em alguns dos outros troncos e ascendi… Toquei a estranha planta, percebi que se sustentava com tamanha qualidade que nem mesmo os mais fortes ventos serranos a abalariam; pensei que ela só poderia sair dali se junto com o coqueiro que sustentava; e se o mesmo fosse severamente cortado, para servir de estacas, ela o acompanharia?

Senti vontade de ter um pedaço dela para mim. Por quê? Acho que pelo fato de estar em associação me chamou a atenção. Tratava-se de vários “tubérculos” como se fossem batatas aéreas. As folhas eram bem escassas e não estavam presentes no ápice de todas as estruturas. Arranquei algo que representava cerca de 2/10 da planta.

Chegando a casa dos meus avós, não soube explicar o que era aquilo, disse apenas que se encontrava a meia altura, no tronco do coqueiro, ali na frente. Um dos meus tios prontamente afirmou: ah, isso é parasita!

Catasetum macrocarpum

Mas veja-se como somos inferiores à natureza: ao chegar a minha casa eu preparei um vaso com bastante terra e plantei aquele pedaço (dois bulbos); ora, será que aquilo que tanto me fascinou (o fato de ser epífita, que hoje compreendo bem, naquela época não) foi por mim considerado um erro? Eu quis (em minutos, apenas) “corrigir” uma qualidade, uma estratégia que a natureza vem aperfeiçoando, desde tempos longínquos? Aquilo rendeu anos, ela sobrevivia e produzia uma, duas, três flores; a cada novo bulbo, definhava o antigo…!

Eu precisava conhecer mais. O computador e a internet foram, a princípio, as melhores ferramentas. Eu começava a descobrir sobre o mundo das orquídeas (epífitas, rupícolas, terrestres), usam as árvores, as pedras, como suporte; as raízes mais tem a função de fixar, do que absorver nutrientes. Mas ainda, assim indagava-me… Como é que nós, fixados na terra, ainda sofremos tanto aqui no Nordeste: a terra é esturricada, pobre, a água se não é divina não existe e tal e tal… Como é que se vive sem terra, sem água ajuntada da “pingueira”?

Catasetum macrocarpum

E num dia só eu quis conhecer tudo sobre as orquídeas, quis ler tudo que se amostrava, quis imprimir tudo (texto, foto, foto, texto, texto, foto, foto…), mas percebi que havia mergulhado num mundo quase infinito, não tanto quanto nossos sonhos, nossos projetos e nossas abstrações etc.
Percebi que havia entrado num caminho sem volta (eu tento sair, mas o que farei com elas?); É um caminho sem espinhos, mas repleto de armadilhas, tentações as mais severas, mas de uma recompensa que só sabe quem vê, quem sente…!

Foi assim, quase assim, que eu comecei a cultivar orquídeas: como um predador; pratiquei predação numa natureza já tão sofrida, modificada… Se havia inocência? Havia não, eu sei, havia curiosidade, encanto… Penso que se naquele momento eu tivesse um celular de última geração, ou um tablet, em mãos, não teria caído em tentação, mas por outro lado, talvez não tivesse a oportunidade de escrever este texto e de rememorar…

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