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Orquídeas do mato – as consequências da coleta ilegal

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Antes de começar, vale ressaltar que não sou santo em relação a isto. E esta é a minha história…

Quando comecei a levar mais a sério o hobby, me deslumbrei com a possibilidade de coletar plantas nas matas e achar que com isto minha coleção iria ter várias espécies fantásticas, diferentes, raras, etc, etc e etc.

Ledo engano.

Com o tempo, percebi que plantas retiradas do mato são mais suscetíveis às doenças. São mais fracas, podendo perecer rapidamente. De raras e diferentes, descobri que na verdade são as mais comuns (claro, meio óbvio se pensarmos bem).

O pior não é isto. Com as orquídeas coletadas, toda minha coleção ficou vulnerável às doenças trazidas da mata. Afinal, meu ambiente controlado não combina com a variedade quase infinita de coisas que podem estar em uma simples mudinha coletada.

Não perdi minhas plantas, mas perdi várias coletadas. Compreendi que o que eu estava fazendo estava errado. E comecei a pesquisar sobre o assunto. São muitas as discussões sobre o extrativismo ilegal de nossas florestas. Existem muitos pontos a serem considerados dos dois lados desta moeda. Informação e educação são o melhor remédio.

Depois de algumas conversas no Facebook, decidi escrever aqui sobre o assunto. Leia com atenção e tire suas conclusões, comente, debata. É disto que precisamos.

Legislação

De acordo com a Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, referenciada ao final deste artigo, extrair e comercializar espécies da nossa flora é crime, com pena e multa.

Existem alguns artigos nesta lei que gostaria de comentar – seção II – Crimes contra a flora.

  • Art. 46. Receber ou adquirir, para fins comerciais ou industriais (…) produtos de origem vegetal, sem exigir a exibição de licença do vendedor, (…), e sem munir-se da via que deverá acompanhar o produto até final beneficiamento: Pena – detenção, de seis meses a um ano, e multa.Parágrafo único. Incorre nas mesmas penas quem vende, expõe à venda, tem em depósito, transporta ou guarda (…) produtos de origem vegetal, sem licença válida para todo o tempo da viagem ou do armazenamento, outorgada pela autoridade competente.

Resumidamente, este artigo implica na ilegalidade do ato de comercializar produtos de origem vegetal (sim, orquídeas são produtos de origem vegetal) sem a devida licença. Ponto de atenção ao fato que o transporte e o armazenamento também é crime.

  • Art. 50-A. Desmatar, explorar economicamente ou degradar floresta, plantada ou nativa, em terras de domínio público ou devolutas, sem autorização do órgão competente: Pena – reclusão de 2 (dois) a 4 (quatro) anos e multa.

Precisa dizer algo? Ah, segundo o artigo 53 a pena aumenta se a planta for ameaçada.

Esta lei é muito interessante, deve ser lida por completo. Reclamamos muito de nossos políticos, o mínimo que podemos fazer é ler o que eles levam anos para votar, justamente para saber se corresponde àquilo que esperamos deles.

Na na ni na não!

Além de ser crime, acredito haver uma questão ideológica quanto ao fato de não retirarmos espécies nativas de uma floresta. Talvez até um sentimento de culpa meio disfarçado. O fato é que o ato de retirar uma planta, ou um pedaço dela, de um lugar, pode ocasionar uma série de “problemas” nos vários elos desta corrente.

Primeiramente, se todos nós retirássemos plantas da natureza, este extrativismo em massa resultaria na extinção das orquídeas. “Ah, Luis, que exagero!“. Vocês já assistiram o filme Bee Movie? É muito parecido com o que acontece nele. Vamos analisar desta forma:

Você retira em massa uma espécie de uma determinada região de floresta, com um ecossistema muito específico (o que não é difícil). Esta planta, por exemplo, realiza simbiose com algum animal que vive na região. Logo, este animal fica “órfão” de seu par simbiótico e parte para outra região. Outras plantas, que dependiam deste animal para sobreviver (alimentação ou reprodução), passam a definhar e morrer. E o ciclo continua, como um dominó. Varias espécies interdependentes acabam sofrendo por uma ação que, a princípio, parecia inofensiva.

Você seria capaz de dormir sabendo que um ecossistema inteiro entrou em colapso porque você foi egoísta?

A orquidofilia está intimamente associada à causa ecológica e todo cultivador de orquídeas deve ser, acima de tudo, um defensor do meio ambiente.

www.orquidofilos.com

Mas você foi egoísta e retirou aquela Pleuro-sabe-se-lá-o-que da mata e levou todo feliz e pimpão para casa. Afinal, era só uma mudinha, a planta continua lá.

Vamos aos fatos. Plantas nativas estão em condições completamente diferentes das nossas, enclausuradas em casa. Enquanto as nossas são bem tratadas, limpas e livres de pragas (pelo menos deveriam ser), as plantas nativas estão infestadas de fungos, bactérias, líquens, enfim, pragas em geral. Quando você corta uma muda na natureza 1) o restante da planta que permanece em seu habitat fica com uma porta escancarada para as pragas citadas acima e, consequentemente, doenças e 2) você leva todas estas pragas (estou repetitivo hoje) para casa, para infestar sua linda coleção de híbridos que nunca viram uma doença. Resultado, a planta que ficou, a muda que você trouxe e as que você já tinha em casa podem contrair doenças e morrer.

Ah Luis, mas lá tem um monte! Uma não vai fazer falta” – saiba que a coleta de orquídeas
selvagens nas matas é uma das principais ameaças de extinção de várias espécies, ao lado da perda derivada de desmatamentos.

Ah Luis, mas uma planta é capaz de dar milhares de sementes! Uma não vai fazer falta” – as orquídeas são plantas exigentes e especializadas e, consequentemente, sofrem com as interferências nas florestas primitivas. Elas possuem frutos em forma de cápsulas, capazes de armazenar, cada uma, até três milhões de sementes. As sementes não possuem reservas (endospermas) e só germinam ao encontrar ambiente propício. Assim, quando a cápsula explode, a matriz ‘aposta’ em muitas possibilidades, na expectativa de que pelo menos algumas caiam em um local ideal e uma nova planta germine.

Ah Luis, mas depois eu volto lá e coloco um monte de plantas no lugar! Uma não vai fazer falta” – grande perigo! A reintrodução de espécies exóticas (não nativas da região) pode causar sérios danos à flora local. Imaginem o cenário: você coloca em uma floresta um híbrido lindão. Nesta floresta existem Cattleyas ameaçadas de extinção. Seu híbrido começa a se desenvolver rapidamente, afinal, é um melhoramento genético das Cattleyas nativas. Talvez até daquela que está ali, ameaçada. Após alguns anos as duas espécies começam a competir por recursos e o híbrido é mais forte, se sobrepõe à espécie nativa. Pronto, fim da história, mais uma espécie extinta.

Exemplo? Procure no Wikipedia sobre o mexilhão-dourado, caramujo-gigante-africano, o coral-sol (suncoral), entre outros exemplos. Todos foram introduzidos em nosso ecossistema, prejudicando-o.

O outro lado da moeda

Claro que não posso deixar de comentar algo sobre as coletas benéficas. Mas prestem atenção: são feitas por especialistas, que utilizam o material biológico para preservar a espécie. Um pouco de história:

Desde 1928 o Orquidário do Estado trabalha com a preocupação de comprar plantas também de outras regiões do país para incrementar a coleção e salvar muitas da extinção. O orquidário possui 17 mil plantas registradas, de 700 espécies. A presença de tal diversidade está relacionada à manutenção dos últimos fragmentos de Mata Atlântica, Mata de Restinga e florestas estacionais. Lembrando um pouco das aulas de história, no começo do século passado grandes espaços florestais deram espaço às fazendas de café. O desmatamento em série motivou o naturalista Frederico Carlos Hoehne a criar um espaço para tentar preservá-las. Desde então, o Orquidário do Estado é o porto seguro de muitas espécies, salvando-as da extinção.

Aliás, talvez você não saiba. No site do IBAMA existe uma lista com as espécies ameaçadas. Espécies como Cattleya aclandiae, Cattleya nobilior, Cattleya walkeriana e vários Sophronitis praticamente foram dizimados de nossas florestas. E quando reaparecem…

Caso 1: Cattleya jongheana

Considerada extinta na natureza há mais de um século. Na década de 80 a espécie foi redescoberta na Serra do Itambé, em Minas Gerais, mas a coleta predatória a colocou de volta na lista de extinção. O lote de jongheana cultivado no Orquidário do Estado veio de uma apreensão do IBAMA, num flagrante de coleta ilegal realizada por orquidófilos. “Esse é o problema do orquidófilo e de quem cultiva”, comenta o chefe do Orquidário do Instituto de Botânica de São Paulo, Eduardo Luis Martins Catharino. “Ás vezes, eles não têm noção do estrago que uma grande coleta causa numa população natural. Eventualmente a planta tem uma distribuição geográfica tão restrita e se houver uma pressão em cima, acabou a espécie”.

Caso 2: Laelia alaori

Planta pequena e rara, descrita em 1986 por um funcionário do Orquidário de Piracicaba, no interior paulista. Mal descoberta, numa coleta no Sul da Bahia, logo foi dada como extinta. Há pouco tempo, redescobriu-se uma população natural da espécie em Minas Gerais e para lá correram os cultivadores do Espírito Santo, que a estão extraindo aos milhares. A espécie voltou à lista de ameaçadas de extinção, devido à coleta indiscriminada.

O que fazer?

Simples, consciência, meu amigo.

Só com o combate ao desmatamento, fiscalização à coleta predatória e as campanhas de educação ambiental, conseguiremos conservar.

Fábio de Barros, especialista em taxonomia de Orchidaceae e pesquisador do Instituto de Botânica de SP.

Compre plantas de viveiros idôneos, conhecidos. Evite o comércio das plantas retiradas da natureza, vendidas na beira de estradas ou em feiras livres. Geralmente, estas apresentam manchas na folhas e não estão enraizadas nos vasos, mas amarradas em galhos e tocos e xaxins. Acha que não vai saber diferenciar uma da outra? O IBAMA publicou um artigo que visa ajudar quem quer entrar nesta corrente do bem a evitar orquídeas do mato. Traduzido do título original Pictorial Guide – Differentiation of wild collected and artificially propagation of orchids, este documento mostra de forma abrangente como identificar plantas coletadas e plantas legalmente reproduzidas em laboratório. Se você procurar no Google por este nome irá achá-lo facilmente. Para ajudar, eis um resumo:

Plantas coletadas

Muitas raízes crescendo na mesma direção; muitas raízes mortas e com pedaços de casca de árvore; ponta das raízes frequentemente danificadas; número desequilibrado de folhas e raízes; cápsulas de sementes presas às plantas; as folhas são sujas e geralmente não apresentam aspecto saudável, por causa de líquens e por estarem desidratadas e/ou contaminadas por fungos; muitos pseudobulbos mortos e outros sem as folhas ou danificados.

Plantas de laboratório

Raízes crescendo de acordo com o formato do vaso; resíduos do material de propagação; quantidade equilibrada de folhas e raízes; ausência de bainhas secas; folhas e raízes saudáveis; plantas com formato e tamanho uniformes; flores com cores vivas.

Bom, por enquanto é isto. Leia e reflita, valerá mesmo retirar aquela mudinha da mata ou gastar um pouco a mais em uma muda forte, saudável e legal?

Pense bem.

Referências

Abraços!

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